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O cantinho dos afetos… e da saúde

Agrupamento de Escolas de Anadia

“Nenhum fez nada disso ainda, que eu saiba…”, diz o Salvador na sua meia inocência juvenil referindo-se aos amigos da escola. “Eu ainda não quis nada com nenhuma das raparigas, já lhes disse que elas são bonitas e simpáticas. Gosto delas mas só como amigas. Já dei beijinhos em algumas, mas para mais nunca gostei de nenhuma o suficiente.”

O Salvador tem 14 anos, é desportista e estuda numa escola de língua inglesa. “É um adolescente no início da puberdade, está na idade das descobertas, das primeiras experiências”, explica Nuno Nodin, psicólogo, professor universitário e especialista na área de sexualidade juvenil. “Nesta idade, um adolescente ainda não mostra interesse na experiência da relação sexual em si, só quer saber, conhecer.”

Claro que há excepções, como a menina romena que deu à luz aos 10 anos em Espanha e que deixou o país e o mundo em choque. Como também há o extremo oposto, com adultos de 30 anos que ainda não sentiram a faísca para o sexo. Mas são excepções que confirmam a regra. E a regra é que, no início da adolescência, os jovens estão predispostos para aprender, descobrir, perceber.

E não se julgue que é verdade, como geralmente se supõe, que cada vez se faz tudo mais cedo. “Se as crianças fizessem tudo cada vez mais cedo, estariam a ter relações sexuais aos cinco anos. É um mito que deve ser desvalorizado”, diz Nuno Nodin. “O importante a perceber é que nesta fase há um desfasamento entre a maturidade fisiológica para a sexualidade e a maturidade que a sociedade considera como o estádio adequado ao início da actividade sexual.”

O corpo diz uma coisa, a cabeça outra e a sociedade ainda outra. “Há uma preocupação dos adultos, normalmente ligada à moral e às normas, que diz não; depois, há uma cultura que incentiva à sexualidade que diz que é uma coisa boa e fantástica. E os adolescentes, no meio disto e com o corpo a dar sinais, sentem-se espartilhados.”

Em casa do Salvador o espírito é descontraído. É o segundo de quatro filhos e a mãe, Inês, deixa estes assuntos para o pai, de quem é divorciada. “Nunca abordei especificamente assuntos relacionados com a sexualidade. Vai-se falando quando vem à conversa e com naturalidade.”

E fala-se um pouco de tudo. “No entanto, há sempre alguma coisa que não se conta, tanto do lado deles, como do lado dos pais. Penso que deve haver respeito na relação pai-filho e deixar espaço na vida de cada um. Ser pai não é o mesmo que ser amigo”, defende Inês.

E, de facto, os amigos têm uma importância crucial na “fase das borbulhas”. É que, como remata Inês, às mães custa entender a juventude, “a forma como se relacionam rapazes e raparigas. Tudo é diferente. No meu tempo, as raparigas não telefonavam aos rapazes, hoje sim. Vejo muitas vezes elas a tentarem chamar a atenção e eles a não ligarem muito”, conta a mãe.

A Adriana tem 13 anos, a caminho dos 14. Conta que dos três namorados que teve houve um de quem gostou muito. “As emoções são uma questão central na educação sexual, tudo está ligado à afectividade. A sexualidade também é o medo, as vergonhas, as descobertas, os amores”, explica o psicólogo.
A Adriana parece certa nas suas opções. Clara, natural, meiga, para ela não faz sentido não abordar algumas questões. “Por exemplo, quando comecei a ver as maminhas a crescer, olhei para mim e pensei: o que é isto?! Mas depois falei com a mãe e percebi.”

Tânia, mãe da Adriana, diz que a filha “faz sempre perguntas directas e, claro, as respostas também têm de ser. Friso constantemente que para qualquer dúvida estarei sempre pronta a responder”. Uma boa forma de encarar o assunto e de ter a filha adolescente do seu lado, uma incapacidade para muitas mães.
O segredo está em que “deve falar-se desde sempre sobre sexualidade, aproveitar o quotidiano das famílias, as notícias, uma cena escaldante de uma telenovela. Tudo isto é educação sexual. Se o pai ou a mãe, em vez de mudarem o canal rapidamente, disserem ‘olha, se quiseres saber o que eles estão a fazer, eu posso tentar explicar-te’, estão a abrir caminho para o filho falar no assunto. Quando se chega à adolescência, se eles já tiverem essa abertura, naturalmente viram-se para os pais”, explica Nuno Nodin.
Os adolescentes falam com pessoas que eles sentem que são receptivas. Há professores bastante disponíveis, e este tema da sexualidade deveria ser tratado com abertura por todos, uma vez que a transversalidade foi legalmente consagrada. Por exemplo, o canto IX dos Lusíadas, aludindo à sensualidade das ninfas, deve ser aproveitado para se falar das emoções numa aula de português.

Famílias repressivas e pais controladores são contraproducentes. “É bom que eles dêem cabeçadas, mas o laissez-faire também não é recomendável”, aconselha Nuno Nodin. O segredo para o psicólogo está em formar um adolescente “com atitude positiva face à sexualidade”. Os que estão bem informados, que sabem do que se trata, que riscos correm, são afinal aqueles que irão ponderar melhor quando pretenderem iniciar a vida sexual.
“Está mais do que provado que uma vida sexual bem preparada faz um adolescente – e mais tarde um adulto – satisfeito, com saúde física e psíquica, o que vai contribuir para se sentir bem consigo próprio. Também sabemos o contrário: adolescentes que vêm de ambientes familiares onde o sexo é tabu são aqueles que, quando confrontados com uma situação destas, não sabem o que é e podem ceder à pressão, ou acham que querem fazer e afinal não sabem o quê. É aí que acontecem muitas vezes os problemas, como as gravidezes não desejadas.
Estes adolescentes foram educados a achar que a sexualidade é uma coisa feia e negativa e, quando de repente acontece, não sabem lidar com ela”, explica o psicólogo. “Isto contradiz a teoria de muitos pais e educadores, que, durante muito tempo, tentaram boicotar a implementação da educação sexual nas escolas. Falar não faz correr para experimentar, pelo contrário”, adverte.

A Adriana confessa que só quer “experimentar quando for mais velha, lá para a idade com que os meus pais me tiveram”.
O Salvador diz que, quando vir a menina dos seus sonhos e “estiver com ela, acho que vou contar aos meus pais”.
O QUE É A PUBERDADE?
· É um período que se caracteriza por alterações físicas e fisiológicas
· Inicia-se mais cedo nas raparigas, por volta dos 10/11 anos, com o crescimento do peito, aparecimento de pêlos púbicos e alteração das formas do corpo
· Nos rapazes, aparece um pouco mais tarde, por volta dos 11/12 anos, com o aparecimento dos pêlos e a mudança da voz
· É a chegada da fertilidade que se concretiza com a experiência da primeira menstruação (menarca) para as meninas e com a produção dos primeiros espermatozóides para os rapazes. É o início da possibilidade de se ser pai ou mãe

GRANDES DÚVIDAS DOS ADOLESCENTES
· Como se faz sexo?
· Questões ligadas à pornografia a que são expostos (televisão, revistas que aparecem na escola)
· O que é o orgasmo?
· O que é o aborto?
· Tenho de casar?
· O que é o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
· O que são abusos sexuais (devido a casos circunstanciais, como o processo Casa Pia)
LEGISLAÇÃO PORTUGUESA SOBRE O ENSINO DA SEXUALIDADE
1984 É consagrado o direito à educação sexual, direito que pouco passou do papel.
1999 Nova lei reforça as garantias no direito à saúde reprodutiva e
preconiza que nos estabelecimentos de ensino básico se implementem
programas para a abordagem da sexualidade (aparelho reprodutivo, SIDA
e outras doenças sexualmente transmissíveis, relações interpessoais,
partilha de responsabilidades e igualdade entre géneros). Nesta altura, ficou
legitimada a educação sexual como componente da educação. Todavia, na prática pouco se mudou.
2009 No ensino, a educação sexual integra-se no âmbito da educação
para a saúde, nas áreas curriculares. É consagrada a transversalidade da
educação sexual em todas as disciplinas. Aguardam-se resultados.

Conselhos de Nuno Nodin
· Não espere pela adolescência para abordar os assuntos da sexualidade
· Procure ser natural
· Não force conversas
· Eduque-se também
· Veja sites na Internet que ajudem
· Fale com técnicos, associações, especialistas
· Compre livros
· Acompanhe o crescimento dos filhos
Exija educação sexual na escola

Felipa Veiga – Revista Máxima

Fonte: http://redeeducacaosexual.wordpress.com

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